porque aceitei este encontro? essa foi a pergunta que martelou minha cabeça (e deveria ter sido melhor ponderada antes) desde que desci do tramvaj (ônibus elétrico), perto de petrin gardens, onde termina a descida do funicular de petrin hill, colina que oferece uma das vistas mais lindas de praga... cá entre nós, funicular é ótimo, não? esse nome semi-erótico para bondinho..
não havia tempo pra turismo noturno.. basicamente perdi a hora injetando doses cavalares de cafeína (pra cortar o porre) num café em malá strana, região próxima ao palácio real, e como escurece cedo no inverno, nem percebi que já seria difícil brincar de transporte pela cidade após a meia noite. o jeito mais rápido pra chegar na cidade velha (starého města), naquele horário, era mesmo na base da botina.. e eu estava um pouco atrasado.
dali o caminho era simples, tipo uns 10 minutos de caminhada e já tinha cruzado a ponte légií, de volta ao miolo antigo.. rolavam também uns atalhos pra chegar ao local combinado, o národní muzeum (museu nacional).. um verdadeiro zigue-zague de ruelas, becos escuros e alguns gasparzinhos.. mas ainda tinha um pouco mais de pedal pela frente..
a noite era daquelas com lua escondida entre algumas breves nuvens.. as ruas do centro, forradas com pedras antigas formando um tapete irregular, refletiam a fraca luz dos postes na umidade da bruma fria.. e o ar gótico impregnado em tudo.. quase não se encontra alma viva pelo trajeto..
depois de um tempo, achei melhor sair do labirinto e voltar para as avenidas principais, confesso que comecei a ficar meio paranóico.. pensamentos malucos.. porque diabos ela tinha marcado a conversa na entrada do museu? ainda não estava claro pra mim.. e porque ela saiu correndo?
callie rose
a tal "ela" em questão, era callie rose, nome de guerra de uma prostituta da eslováquia, pouco mais de 18 anos, fruto da ressaca de um comunismo feroz.. depois de tentar a vida em alguns países do bloco comum europeu, acabou voltando pra antiga capital, desta vez como propriedade de um poderoso chefe da máfia tcheca. só mais tarde fui descobrir a trama toda e seu nome verdadeiro: eliška.
conheci callie rose, ou eliška, dentro de um restaurante mexicano, ainda na área de malá strana.. surreal encontrar em praga um dos melhores pratos mexicanos que já comi em minha vida (e acredite, o teto do local é todo revestido com sacos de café de guaxupé!!), também meu ponto predileto pra degustar uma frozen marguerita de morango, como poucas que já provei..
só que o motivo de estar ali hoje era outro: precisava de um informante.. minha fluência no idioma tcheco é pior do que criança em pré-primário e por isso às vezes fica difícil pedir informações, caso não encontre alguém que pelo menos arranhe o inglês.. eu tentava descobrir quem poderia me ajudar com acesso a registros policiais.. para isso, o melhor caminho para um estrangeiro seria descolar um colega certo de porre.. bebum vira melhor amigo e conta tudo.. e olha que em praga o povo bebe direitinho.. então nessas horas, o cafetão ideal é sempre o barman... gasta direitinho no bar que ele te ajuda..
em algum momento callie deve ter me ouvido mencionar máfia e acho que isso atraiu sua atenção.. logo ela estava sentada ao meu lado no balcão, com o ouvido apontado pra mim.. claro que, de cara, percebi que aquela linda loira na banqueta ao lado não era produto do meu charme, nem demorou muito pra perceber o selo de "profissional" do esporte.. mas eu tampouco aparentava ser rico (não que eu fosse mulambento, mas rico estaria em outros restaurantes), por isso fiquei também curioso com o súbito interesse da jovem, já com olhar fixo em mim.. tudo bem, a tequila cumpria a parte dela, eu já ria um bocado e talvez a bela moça não fosse a única a me observar.. só que eu já tava no modelo "i don't give a shit", uma vez que eu era habitué do recinto e atração diária (ou cobaia) dos garçons, pra aprender palavrão em tcheco (povo adora ensinar isso pra turista, não?).
o submundo de praga sempre me fascinou.. o clima de máfia de leste europeu, com suas BMWs roubadas (praga ainda tem um alto índice de roubo de carros de luxo e o preço dos seguros de automóveis é astronômico), lindas loiras em casacos de pele, uma turminha casca grossa com o sangue aquecido à base de litros de slivovice (bebida local, uma pinga de ameixa).. mas não foi por acaso que despenquei na república tcheca.. existia um nome, sempre citado nas minhas últimas pesquisas em londres, que acabou me levando a praga: ondřej. ele era o motivo, o mistério que eu perseguia. e eu só sabia o primeiro nome.. por enquanto..
lembro de ter citado o bendito nome ondřej apenas uma única vez no balcão do mexicano, meio que pra testar o nervo da coisa.. baaaammmm! o barman derrubou metade da marguerita da taça, e, sem olhar pra trás, começou a praguejar enquanto completava novamente a dose do drink (praguejar em praga é absolutamente formidável, não?).. foi nessa hora que callie rose me abordou.. passou a mão pelo meu ombro delicadamente, como se me convidasse a um programa, cochichou no meu ouvido e sumiu.. não tive tempo nem de responder..
národní muzeum
frio... muito frio mesmo... frio da porra... faltavam alguns minutos pro relógio bater 1 da manhã, horário combinado em frente ao museu.. durante a caminhada cheguei a duvidar do encontro, ou da "best information" que ela prometeu, quase suspirando ao meu ouvido... tava com cara de pegadinha do malandro, ou coisa pior, só que algo me dizia que a menina falava sério.. e muito..
cheguei pela václavské, uma larga avenida que percorre as laterais da praça carlos (ou karlovo náměstí) e leva direto ao pórtico de entrada do muzeum.. fui andando bem rente às portas fechadas do comércio, aproveitando a sombra da noite escura pra mapear toda a fachada do prédio antes de ir pro campo aberto.. não estava com muita vontade de surpresinhas desagradáveis.. assalto seria o de menos, pois além de algumas korunas no bolso (moeda local), de valor mesmo só o celular.. nem meu passaporte eu carregava..
demorei pra enxergar callie rose camuflada na lateral da escadaria, ela não era alta e vestia um longo casado preto.. estava estática, na entrada esquerda.. talvez o frio polar inibisse qualquer movimento.. quando me avistou, ela olhou atentamente para os lados, fez sinal pra me aproximar rapidamente e recuou alguns passos para um canto escuro abaixo da escadaria..
eu mal conseguia enxergar seu rosto, só podia sentir o mesmo perfume do balcão do restaurante.. se era caro ou não, nem arrisco dizer, mas era um cheiro suave e agradável, nada do estereótipo de perfume doce e vagabundo de prostitutas que usam batom igual o bozo.. ainda não havia nela uma pose de mulher altiva, mas dava pra sacar que era uma coleguinha profissional de luxo.
ao me aproximar, fui puxado pra bem perto, como uma criança que precisa ouvir um segredo.. mesmo à pouca distância, só era possível distinguir o contorno do belo rosto, de pele bem branca, com grandes olhos azuis, doce e ainda jovial, mas endurecido no perrengue da labuta.. as palavras, afobadas e num tcheco/inglês embolado no começo, logo começaram a fazer sentido: "você está em apuros, já me viram falando com você".. não pude entender a dimensão do que ouvia, será que falei demais no restaurante? que drama era esse? "você precisa mudar de hotel ainda hoje".. sério? o que deu nessa doida??
cena confusa.. naquele momento foi tudo o que consegui pensar.. lembro de sentir a mão de callie apertando meu pulso.. e um grito em tcheco.. depois disso foi tudo teto preto.. vi o chão chegando perto em quinta marcha e não lembro de mais nada.
(to be continued)


Nenhum comentário:
Postar um comentário