olhar pueril... qto tempo faz que vc não se pega sentindo isso? qto tempo faz que vc não olha as coisas ao redor sem um filtro pré-determinado pelas convenções normais da rotina diária, pelo senso comum... uma cadeira pode não ser mais uma simples cadeira... se vc não soubesse o que era uma cadeira, como seria sua leitura disso?
aldous huxley já questionou, lá na década de 50, o filtro destas percepções. para ele o estado "limpo" de percepção só poderia ser alcançado por hipnose, "transe" religioso ou efeito de drogas (no caso dele a mescalina). aí sim seria possível uma visão desprendida de regras convencionais... uma visão pueril, sem fronteiras...
em meu recente exercício de entender o que se passa na cabeça do jovem de hoje (por conta de uma matéria encomendada sobre o assunto) uma pergunta tem me martelado: o que era considerado normal e descolado pela minha geração e o que é pra de hoje? exercício curioso... olhar pro meu próprio passado, analisar o que era simples delírio de adolescente - por mais que eu tivesse plena convicção na época -, e hoje pode ser questionável. tendências à parte, modismos à parte, delírios à parte, uma coisa me chama mto a atenção. engajamento de hoje é sobre a balada eletrônica que é mais "cool"... a droga que é mais cool... a turma que é mais cool... a atitude que é mais cool...
não que as buscas por novas referências do jovem atual sejam uma atitude mto diferente da minha época, o que me chama mais a atenção é o tamanho da alienação que existe hoje para o senso coletivo. como os próprios noticiários mostram que nada acontece pra quem faz merda, porque eu deveria me preocupar com as consequências de meus atos à terceiros? basicamente é isso que dita o comportamento moderno. deixa eu cuidar de mim. e cada um por si. lema de mosqueteiros é coisa de filme da minha avó. pára com isso...
acho a violência urbana um problema, mas minha turma do jiu-jitsu quebrou um carinha de porrada semana passada porque ele olhou pro meu sapato... veja só vc que afronta... ouço música eletrônica porque é mais fácil, não preciso decorar os 147 minutos da letra de faroeste caboclo pra ser cool...
exercício curioso esse de olhar pro retrovisor... será que estou sendo protecionista e complacente com meu passado? será que eu tb era tão "imbecilizado" assim? a gente tende a achar que não, e até prefere achar que não, mas realmente fiquei na dúvida. a gente era tão imbecil assim na idade de ser imbecil?
o que fica ecoando na minha cabeça é o tanto que era permitido, ou moralmente aceitável, sem parecer imbecil. escândalo hoje é o que? desfilar no ensaio da escola de samba sem calcinha não é mais escândalo. roubar milhões dos cofres públicos não é mais escândalo... aliás, conta uma novidade... nem ser pego em bafômetro hoje vira escândalo. as convenções sociais estão perdendo o sinal vermelho. "regras" de convívio perdem o sentido, viram coisa de careta. fidelidade, ética, honestidade já possuem fronteiras mais flexíveis. a vida segue, a fila anda, preocupar com o quê? e aí olhar pro retrovisor pra quê? diz aí... moralismo é sim coisa do passado. vai virar tema de escola pra aquela aula chata de estudos sociais. eita.
rearviewmirror
(pearl jam)
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